mandante enquanto bebiam.
- Tenho Jyck e Morrec - respondeu Tyrion -, e Yoren
volta para o sul.
- Yoren é apenas um homem. A Patrulha os escoltará
até Winterfell - anunciou Mormont num tom que não
admitia discussão. - Três homens deverão ser
suficientes.
- Se insiste, senhor - disse Tyrion. - Pode enviar o
jovem Snow. Ele ficará feliz por ter a chance de
rever os irmãos.
Mormont fez um olhar severo por cima da espessa
barba cinzenta.
- Snow? Ah, o bastardo Stark. Penso que não. Os
jovens precisam esquecer da vida que deixaram para
trás, os irmãos, as mães e isso tudo. Uma visita à
casa só irá agitar sentimentos que é melhor deixar
em paz. Eu sei destas coisas. Meus próprios parentes
de sangue... minha irmã Marge governa agora a Ilha
dos Ursos, desde a desonra de meu filho. Tenho
sobrinhos que nunca vi - bebeu um trago. - Além
disso, Jon Snow não passa de um rapaz. O senhor
terá três espadas fortes para mantê-lo a salvo.
- Sua preocupação toca-me, Senhor Mormont - a
forte bebida estava deixando Tyrion alegre, mas não
tão bêbado que não compreendesse que o Velho Urso
queria qualquer coisa dele.
- Espero que possa pagar sua bondade.
- E pode - disse Mormont sem cerimônia. - Sua irmã
senta-se ao lado do rei. Seu irmão é um grande
cavaleiro e seu pai, o senhor mais poderoso dos Sete
Reinos. Fale-lhes em nosso nome. Diga-lhes das
nossas necessidades. O senhor as viu com seus
próprios olhos. A Patrulha da Noite está morrendo,
Nossa força é agora de menos de mil homens.
Seiscentos aqui, duzentos na Torre Sombria, ainda
menos em Atalaialeste, e só um escasso terço desses
homens está pronto para o combate. A Muralha tem
um comprimento de cem léguas. Pense nisso. Se um
ataque vier, tenho três homens para defender cada
légua de muralha.
- Três e um terço - disse Tyrion com um bocejo.
Mormont pareceu quase não ouvi-lo. O velho aquecia
as mãos no fogo.
- Enviei Benjen Stark em busca do filho de Yohn
Royce, perdido em sua primeira patrulha. O rapaz
Royce estava verde como a relva de verão, mas
insistiu na honra de seu próprio comando, dizendo
que lhe era devido enquanto cavaleiro. Não desejei
ofender o senhor seu pai e cedi. Enviei-o com dois
homens que considerava dos melhores que temos na
Patrulha. Mas fui tolo.
"Tolo", concordou o corvo. Tyrion ergueu o olhar. O
pássaro o olhou com aqueles olhos negros, pequenos
e brilhantes, agitando as asas. "Tolo", gritou de novo.
Sem dúvida, o velho Mormont levaria a mal se ele
esganasse a criatura. Uma pena.
O Senhor Comandante não pareceu reparar na
irritante ave.
- Gared era quase tão velho como eu, e tinha mais
anos de Muralha - prosseguiu -, mas parece que
abjurou e fugiu. Nunca teria acreditado, com ele,
não, mas Lorde Eddard me enviou sua cabeça de
Winterfell. De Royce não há notícias. Um desertor e
dois homens perdidos, e agora também Ben Stark
está desaparecido - soltou um profundo suspiro. -
Quem hei de enviar em busca dele? Dentro de dois
anos farei setenta. Estou demasiado velho e cansado
para o fardo que carrego, mas, se o entregar, quem o
assumirá? Alliser Thorne? Bowen Marsh? Teria de
ser tão cego como Meistre Aemon para não ver o que
eles são. A Patrulha da Noite transformou-se num
exército de rapazes rabugentos e velhos cansados.
Além dos homens que partilharam nossa mesa esta
noite, tenho talvez vinte que sabem ler, e ainda
menos capazes de pensar, planejar ou liderar. Antes
a Patrulha passava os verões construindo, e cada
Senhor Comandante erguia a muralha mais alta do
que a encontrara. Agora, tudo o que podemos fazer é
ficar vivos.
Tyrion percebeu que o outro estava sendo
mortalmente sincero. Sentiu-se vagamente emba-
raçado pelo velho. Lorde Mormont passara boa parte
da vida na Muralha e precisava acreditar que
aqueles anos teriam algum significado.
- Prometo que o rei ouvirá falar de suas
necessidades - disse Tyrion gravemente -, e também
falarei ao meu pai e ao meu irmão Jaime - e falaria.
Tyrion Lannister era um homem de palavra. Deixou
o resto por dizer; que o Rei Robert o ignoraria, que
Lorde Tywin perguntaria se ele tinha perdido o
juízo, e que Jaime se limitaria a rir.
- É jovem, Tyrion - disse Mormont. - Quantos
invernos já viu?
Encolheu os ombros.
- Oito, nove. Não me lembro.
- E todos eles curtos.
- É como disse, senhor - Tyrion nascera no auge do
inverno, um inverno terrível e cruel que os meistres
diziam que durara três anos, mas suas mais antigas
memórias eram de primavera,
- Quando eu era rapaz, dizia-se que um longo verão
significava sempre que um longo inverno se seguiria.
Este verão durou nove anos, Tyrion, e um décimo
chegará em breve. Pense nisso.
- Quando eu era rapaz - respondeu Tyrion -, minha
ama de leite me disse que um dia, se os homens
fossem bons, os deuses dariam ao mundo um verão
sem fim. Talvez tenhamos sido melhores do que
pensávamos, e talvez tenha chegado, enfim, o
Grande Verão - sorriu.
O Senhor Comandante não pareceu divertido.
- Não é tolo o bastante para acreditar nisso, senhor.
Os dias já estão ficando mais curtos. Não pode